A proposta de redução da jornada máxima de trabalho para 36 horas semanais pode elevar, em média, em até 27,5% o custo com remuneração das empresas brasileiras. É o que aponta estudo técnico divulgado pela Central Brasileira do Setor de Serviços (Cebrasse), que analisa os impactos econômicos da medida em um cenário de queda persistente da produtividade no país .
De acordo com o documento, embora a redução da jornada tenha forte apelo social — associada à melhoria do bem-estar, qualidade de vida e possível geração de empregos — a sustentabilidade econômica da medida depende de ganhos proporcionais de produtividade por hora trabalhada. Caso contrário, o resultado tende a ser aumento do custo unitário do trabalho.
O estudo destaca que a produtividade por hora trabalhada apresenta variações negativas expressivas nos últimos anos. Conforme tabela apresentada no levantamento, a produtividade total da economia caiu 14,3% em 2021, 20,2% em 2022, 17,6% em 2023, 17,9% em 2024 e 17,6% em 2025, sempre em comparação com o mesmo período de 2020 .
Setores como indústria, construção e serviços mostram recuos persistentes. Nos serviços — segmento que concentra grande parte dos empregos formais — as quedas superam 22% em alguns anos analisados. Para o presidente da Cebrasse, João Diniz, esse cenário reduz a capacidade de absorver um eventual encarecimento da mão de obra.
“O documento ressalta que a produtividade é influenciada por fatores como tecnologia, organização produtiva, qualificação profissional e intensidade de capital, e que não há evidência de que uma redução compulsória e generalizada da jornada gere automaticamente ganhos de eficiência”, afirmou João Diniz.
A jornada média semanal no Brasil é atualmente de 43 horas. Segundo estimativa apresentada na página 6 do estudo, a redução para 36 horas, mantendo-se os salários mensais, implicaria aumento médio de 20,4% no custo com remuneração .
Quando considerados os encargos sociais obrigatórios — como INSS, FGTS e contribuições ao Sistema S — o impacto pode alcançar 27,5% .
Os setores mais afetados seriam aqueles com jornadas médias mais longas, como Transporte, Armazenagem e Correio (46 horas semanais), Indústrias de Transformação e Construção (45 horas), além de Comércio e Agricultura (44 horas) .
Possíveis efeitos econômicos
Entre os principais riscos apontados pelo estudo estão:
- pressão sobre margens de lucro, especialmente em empresas com menor poder de repasse de preços;
- possibilidade de ajustes via redução de salários reais e benefícios;
- substituição de trabalho por automação;
- impactos inflacionários e perda de competitividade.
O levantamento cita experiências internacionais, como o caso francês, indicando que reduções compulsórias de jornada podem resultar em aumento de custos e uso intensivo de horas extras, sem efeitos duradouros sobre o nível de emprego .
Nas considerações finais, a Cebrasse defende que o debate sobre redução de jornada deve se afastar de soluções uniformes e compulsórias, priorizando negociações setoriais baseadas em evidências e adaptadas às especificidades produtivas de cada atividade. Segundo a entidade, apenas com ganhos estruturais de produtividade será possível conciliar melhoria das condições de trabalho com sustentabilidade econômica e preservação do emprego no longo prazo.





