
Relatório aponta que o país reúne condições para se consolidar como um dos principais hubs globais de infraestrutura digital na era da inteligência artificial, com potencial para atrair investimentos em larga escala e gerar empregos qualificados em todo o país.
O Brasil reúne condições estruturais para se consolidar como um dos principais hubs globais de infraestrutura digital na era da inteligência artificial (IA), segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado por Scala Data Centers e Norgás e lançado, na manhã de terça-feira (07/07), na sede do Instituto Livre Mercado, Casa da Liberdade. O levantamento analisa os impactos econômicos da expansão da infraestrutura digital no país e os fatores que influenciam sua competitividade no cenário internacional.
Durante a abertura do evento, o diretor executivo do Instituto Livre Mercado, Rodrigo Marinho, destacou que a infraestrutura digital passou a ocupar um papel central na economia. “O tema que nos une hoje é estratégico. Quando falamos de data centers, não estamos falando apenas de tecnologia; estamos falando de uma infraestrutura essencial para a economia da inteligência artificial, para a produtividade das empresas, para a competitividade do Brasil e para a capacidade do país de participar de uma nova etapa da economia global. A infraestrutura deixou de ser uma pauta setorial”, afirmou. A ABES participou do evento, no qual foi representada por Andriei Gutierrez (presidente), Ricardo Caldas (vice-presidente) e Marcelo Almeida (diretor de Relações Governamentais).
O estudo aponta que vantagens como a matriz elétrica majoritariamente renovável, o posicionamento geográfico estratégico, o tamanho do mercado doméstico e a crescente demanda por serviços de nuvem e de inteligência artificial colocam o país em posição relevante na disputa global por investimentos em infraestrutura digital.
Os impactos econômicos associados ao setor são expressivos. No cenário mais ambicioso analisado pela FGV, que considera a expansão da capacidade instalada de infraestrutura digital de aproximadamente 1 GW para 13,7 GW até 2035, o país poderia gerar mais de 230 mil empregos permanentes. Desse total, aproximadamente 59,7 mil postos diretos estariam associados à operação dos empreendimentos, enquanto cerca de 176,5 mil empregos indiretos e induzidos seriam distribuídos ao longo da cadeia produtiva e da atividade econômica estimulada pelo setor. Os números consideram apenas os empregos permanentes relacionados à operação da infraestrutura, sem incluir os postos temporários gerados durante a construção e implantação dos projetos.
Além da geração de empregos, o estudo aponta que a expansão adicional de 12,7 GW de capacidade poderia mobilizar entre US$ 431,8 bilhões e US$ 698,5 bilhões em investimentos totais, equivalentes a aproximadamente R$ 2,3 trilhões a R$ 3,7 trilhões. Esses valores incluem tanto a implantação da infraestrutura física, como aquisição de terrenos, obras civis, sistemas elétricos, sistemas mecânicos e de resfriamento, infraestrutura predial e sistemas de segurança, quanto os investimentos em equipamentos de tecnologia da informação, incluindo servidores, sistemas de armazenamento, redes e aceleradores de processamento voltados às aplicações de inteligência artificial.
Os dados foram obtidos a partir da aplicação da metodologia de Matriz Insumo-Produto, que permite mensurar o impacto dos investimentos em diferentes setores da economia. Mais do que infraestrutura tecnológica, o estudo destaca que os data centers devem ser compreendidos como um vetor de desenvolvimento econômico. Sua implantação e operação ativam uma cadeia produtiva extensa, que envolve energia elétrica, construção civil, telecomunicações, logística, serviços técnicos especializados, entre outros setores.
Segundo o estudo, os efeitos do setor vão além da implantação física das unidades, com impactos permanentes sobre a produtividade, a qualificação profissional e o desenvolvimento regional, além de estimular diferentes segmentos da economia.
“A pesquisa utiliza uma modelagem de insumo-produto para capturar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos em infraestrutura digital, permitindo medir como esses projetos ativam cadeias produtivas inteiras”, afirma Charles Schramm, Gerente Executivo de Projetos da FGV. “Os resultados mostram que os impactos não se concentram no setor de tecnologia, mas se disseminam por toda a economia, com efeitos relevantes sobre emprego, renda e produção”, finaliza.
A análise também posiciona o Brasil em relação a hubs internacionais consolidados, como Virgínia (EUA), Singapura, Dubai, Japão, Portugal, Canadá e o cluster FLAP-D (Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin), considerando dimensões tecnológica, econômica, energética e regulatória.
Para ampliar sua competitividade e capturar plenamente esse potencial, o estudo aponta a importância de avanços em algumas condições estruturais. Entre elas, maior coordenação institucional, ambiente regulatório estável e previsibilidade energética, com alinhamento entre a expansão do sistema elétrico e a implantação de novas cargas digitais — fatores considerados centrais para o desenvolvimento de hubs internacionais de infraestrutura digital.
O estudo também destaca que a elevada carga tributária sobre equipamentos e serviços reduz a competitividade do Brasil na disputa global por investimentos em infraestrutura digital, ao encarecer a internalização de tecnologia e capacidade produtiva no país.
Nesse contexto, o estudo propõe uma agenda estruturada em quatro eixos: políticas industriais voltadas à internalização da cadeia produtiva de hardware; reconhecimento dos data centers como atividade estruturante no setor elétrico, cujo modelo de negócio depende primordialmente das condições de conexão à rede e do custo da energia; regime jurídico estável de incentivos fiscais; coordenação regulatória capaz de alinhar as agendas de indústria, energia, tributação e governança digital em torno de um objetivo sistêmico comum.
Instrumentos como o Redata, a redução de ICMS sobre importação (em análise pelo Confaz), Ex-Tarifários e as ZPEs são apontados como mecanismos complementares para reduzir assimetrias competitivas em relação a outros hubs globais e ampliar a capacidade do Brasil de atrair investimentos produtivos em infraestrutura digital.
O estudo também recomenda a criação de uma instância coordenadora que inclua União, estados, municípios, reguladores setoriais e representantes do setor privado, a fim de eliminar sobreposições, reduzir prazos e dar maior previsibilidade à expansão da infraestrutura digital no país.
Para a FGV, a consolidação do Brasil como hub digital internacional dependerá da capacidade de estruturar uma agenda coordenada que fortaleça o ambiente de negócios, amplie a conectividade e assegure previsibilidade para investimentos de longo prazo. Em um cenário global marcado pela crescente demanda por infraestrutura para inteligência artificial, países que conseguirem alinhar esses fatores estarão mais bem posicionados para capturar investimentos, desenvolver cadeias produtivas e ampliar sua relevância na economia digital.
“Os principais mercados de infraestrutura digital do mundo, especialmente Estados Unidos e Europa, enfrentam gargalos crescentes para expandir capacidade, como restrições de energia, conexão à rede e disponibilidade de áreas para novos projetos, enquanto a demanda por processamento de dados e inteligência artificial continua acelerando. Isso abre espaço para o surgimento de novos hubs globais. O Brasil reúne atributos raros para capturar essa oportunidade: energia em escala, matriz predominantemente renovável, potencial de expansão, disponibilidade de território e integração às principais rotas internacionais de dados. Se agir agora, o país pode atrair investimentos em escala sem precedentes, gerar empregos qualificados e se consolidar como um dos principais polos globais de infraestrutura digital”, afirma Luciano Fialho, SVP Corporativo da Scala Data Centers.



