Ajuste de rota ou recuo? O impasse da carga horária nas licenciaturas

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Ajuste de rota ou recuo? O impasse da carga horária nas licenciaturas

Na edição de março da coluna Formação de Professores, do portal Educa 21, professora Amábile Pacios analisa as alterações das normativas de presencialidade das licenciaturas

Por Amábile Pacios*

A discussão sobre a carga horária presencial na formação de professores ganhou um novo capítulo. O cenário atual revela o que muitos analistas interpretam como um recuo estratégico na tentativa de reestruturar a presencialidade nas licenciaturas — um movimento que reacende o debate sobre a qualidade do preparo docente no Brasil e as reais possibilidades de implementação das políticas públicas.

O cerne da questão remonta às mudanças regulatórias de 2024, quando a aprovação da Resolução CNE/CP nº 4/2024 buscou estancar a percepção de precarização ao determinar que cursos de licenciatura não poderiam mais ser oferecidos integralmente a distância. Reforçada pela Nota Técnica nº 74/2024 da SERES/MEC, a norma sinalizava que o Estado pretendia retomar o protagonismo da convivência acadêmica e da prática física como pilares da identidade docente. Naquele momento, a diretriz parecia clara: restringir a expansão desenfreada da modalidade remota em favor de uma formação mais densa e territorializada.

Contudo, essa intenção colidiu com a realidade estatística do ensino superior brasileiro. Dados do Censo indicam que cerca de 65% das matrículas em licenciaturas ocorrem na modalidade EAD, índice que ultrapassa os 80% no curso de Pedagogia. Diante desse peso numérico, o Ministério da Educação passou a adotar, ao longo de 2025, uma interpretação mais porosa das regras. Em vez de uma métrica rígida de horas em sala de aula, a regulação passou a priorizar a presencialidade apenas nos componentes considerados essenciais, como estágios e práticas pedagógicas, permitindo que o restante da carga horária permanecesse mediado por tecnologias.

Esse movimento de flexibilização gerou reações imediatas nas redes de ensino. Secretários estaduais de educação têm manifestado preocupação com o perfil dos profissionais que chegam às escolas, argumentando que a formação excessivamente mediada por telas gera um hiato de experiência prática. Para esses gestores, falta ao recém-formado a vivência do ambiente escolar real, o domínio do imprevisto e a sensibilidade pedagógica que dificilmente se desenvolve sem a interação humana direta e contínua. Por outro lado, as instituições de ensino superior alertam que mudanças bruscas podem comprometer a capilaridade da oferta, especialmente em regiões onde o EAD é o único caminho viável para o acesso à profissão.

O episódio revela que o desafio regulatório brasileiro ainda oscila entre a necessidade de garantir qualidade e a urgência de manter o acesso em um país com déficit crônico de professores. No entanto, o aspecto mais importante desse debate talvez seja reconhecer que a qualidade não é um subproduto automático da quantidade de horas presenciais, mas sim da solidez do projeto formativo e da articulação real entre universidade e escola. Em 2026, a pergunta central permanece sem resposta definitiva: como equilibrar a democratização do acesso com o rigor necessário para formar quem educará as próximas gerações, preparando-as para a complexidade da escola contemporânea.

Amábile Pacios é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares, ex-conselheira do Conselho Nacional de Educação e escreve mensalmente na coluna Formação de Professores, do portal Educador 21.

Fonte: https://www.fenep.org.br/ajuste-de-rota-ou-recuo-o-impasse-da-carga-horaria-nas-licenciaturas/

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