Mudou a cabeça dos líderes empresariais?

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A ordem agora é cuidar das pessoas, combater desigualdades e ampliar o capital humano nas empresas, além de cultivar boas práticas ambientais e de governança

A larga experiência de elaboração do Executivo de Valor, adquirida em 20 anos, mostrou aos responsáveis pelo prêmio que ele é o preferido nas corporações entre os vários promovidos pelo jornal.

Quando havia entrega presencial do prêmio, até 2019, os ganhadores faziam questão de levar ao evento seus familiares e subordinados. Nada mais justo,

porque a premiação não é da empresa em que trabalham e sim do executivo, um reconhecimento pessoal, recebido com orgulho e sempre estendido aos colaboradores.

No mês passado, sob o comando da jornalista Stela Campos, o jornal entregou virtualmente os prêmios aos executivos de Valor de 2021. Os premiados, escolhidos por um grupo de 14 empresas especializadas na seleção e no recrutamento de executivos, são, sem dúvida, os 24 líderes empresariais mais importantes do país.

Diante dessa constatação, as declarações desses líderes, colhidas pelo anuário editado pela jornalista Tânia Nogueira Alvares, com cerca de 100 páginas, formam um painel revelador das transformações em andamento nas grandes corporações empresariais brasileiras.

Cinco anos atrás, os vencedores do Executivo de Valor de 2016 se diziam preocupados com eficiência, resultado, austeridade e, especialmente, com a velocidade das mudanças tecnológicas, que exigiam respostas rápidas dos CEOs e de seus subordinados. O neologismo “disruptivo” estava na moda, porque chegavam ao mercado companhias como Airbnb, Uber e outras promotoras de transformações digitais que assustavam até as megaempresas.

O maior desafio dos executivos era lidar com essa situação, que exigia mudanças imediatas. Inovação sempre havia sido preocupação dos líderes, mas naquele momento parecia ser questão de vida ou morte para corporações centenáriasA ordem era incentivar os colaboradores a exercer a criatividade, mesmo que fosse preciso correr risco de errar.

Passados cinco anos, as preocupações com resultados e inovação tecnológica continuam no radar das empresas, naturalmente. Mas há um fato novo incontestável, em parte decorrente da pandemia, estampado nas entrevistas com os líderes premiados. O comportamento dominante indica que a ordem agora é cuidar das pessoas, combater desigualdades e ampliar o capital humano nas empresas, além de cultivar boas práticas ambientais e de governança. Claro que já havia preocupações nesse sentido seis anos atrás, mas elas eram figurantes nos roteiros dos executivos.

A esperança é que o novo discurso não seja apenas da boca pra fora, venha a ser mantido e posto em prática mesmo quando a pandemia acabar. A lição aprendida pelos executivos foi que as corporações precisam olhar mais para seu entorno. “A pandemia descortinou a desigualdade de forma tão cruel que criou a urgência de uma solidariedade mais proativa e abrangente que não pode ser esquecida quando tudo passar”, disse o CEO da Cosan, Luis Henrique Guimarães.

A partir de agora, afirmam consensualmente os executivos, as empresas terão que atuar cada vez mais para melhorar a condições da sociedade e não terão que prestar contas apenas a seus acionistas. Frases como “não dá para ser feliz vendo injustiça e desigualdade”, antes tidas como falas de perigosos socialistas, saem agora da boca de fiéis representantes do capitalismo.

Entre os executivos premiados pelo Valor neste ano há um do Terceiro Setor, Eduardo Lyra, fundador e CEO da Gerando Falcões, ONG criada há dez anos e que faz um trabalho de sucesso na inclusão social de pessoas da periferia. Não existem empresas vencedoras em países fracassados”, disse Lyra. “Vençam o egoísmo, saiam da bolha, porque a colaboração é a única forma de sobreviver daqui em diante.”

Passada a pandemia, o desafio do século não só do Brasil, mas de todo o mundo, será eliminar a pobreza. E as corporações não têm como deixar de participar dessa tarefa. Mais do que isso, terão de ser protagonistas junto com o Estado, até porque inúmeras multinacionais  viraram gigantes, muito maiores do que centenas de países. O antigo Estado do Bem-estar Social, para garantir condições mínimas de educação, saúde, moradia e outras benefícios sociais, precisa do reforço corporativo. Não há também como continuar avançando em reformas que reduzem direitos trabalhistas, impedem o reajuste do salário-mínimo, “estimulam” o desemprego e semeiam desigualdade social.

Desde o início dos anos 1990, com o Consenso de Washington, os governos de países capitalistas vêm adotando medidas macroeconômicas liberalizantes, como privatização, corte de gastos públicos, austeridade fiscal e abertura comercial. Essas políticas tiveram efeitos positivos para a estabilização das economias, principalmente nos países emergentes, entre eles o Brasil. Mas seu impacto foi desastroso ao provocar mais desigualdade social.

O Executivo de Valor mostra que mudou o discurso e talvez a cabeça dos líderes empresariais brasileiros. Só agora, também, eles começam a se preocupar em cerrar fileiras para defender a manutenção da democracia.

A propósito, cabe aqui um “flashback”. Era o fim dos anos 1970, a ditadura e a política econômica do governo militar brasileiro estavam em descrédito. Durante os anos de regime autoritário, desde 1964, os empresários (nem todos, felizmente) haviam se omitido ou claramente apoiado o que chamavam de “revolução”. Consideravam que a ausência de democracia podia ser tolerada, porque os militares promoviam um “milagre econômico”.

Quando vieram as duas crises do petróleo dos anos 1970, começou a cair a ficha dos empresários. Eles perceberam que sem democracia não era possível influir nas políticas econômicas e sociais do governo. E passaram a pedir a volta da democracia, liderados por um um grupo de grandes executivos, entre eles Antônio Ermírio de Moraes, José Mindlin, Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, Laerte Setúbal, Claudio Bardella, Paulo Villares, Paulo Cunha e Jorge Gerdau Johannpetter.

Claro que nenhum era comunista, socialista ou mesmo esquerdista. Mas a crise mudou a cabeça deles. Não era mais possível pensar apenas em investir, inovar, lucrar. As empresas precisavam engrossar o coro da sociedade para restabelecer a democracia, porque o risco era o caos. Foi penoso e demorado, mas deu certo.

(Pedro Cafardo)

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