Acordo Mercosul–União Europeia, setor de serviços e o ajuste inevitável no custo do trabalho no Brasil

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Acordo Mercosul–União Europeia, setor de serviços e o ajuste inevitável no custo do trabalho no Brasil

Por Jorge Segeti*

A aprovação do acordo Mercosul–União Europeia marca um dos movimentos mais relevantes de integração econômica das últimas décadas. Trata-se da formação da maior área de livre comércio do mundo, conectando mercados, cadeias produtivas e fluxos de investimento. No debate público, a atenção costuma se concentrar na agroindústria e na indústria. Mas, estrategicamente, é o setor de serviços brasileiro que pode se tornar o principal vetor de transformação e geração de emprego nos próximos anos.

Estudos de impacto econômico mostram que o setor de serviços tende a crescer com o acordo, ainda que de forma heterogênea entre segmentos. A projeção agregada indica expansão aproximada de 0,4% no valor de produção, com efeitos mais fortes justamente nos serviços ligados a logística, transportes, armazenagem, tecnologia, consultoria, contabilidade, engenharia e serviços técnicos especializados. Ou seja, os serviços que dão suporte direto à atividade produtiva e ao comércio exterior.

Isso confirma uma realidade pouco percebida: acordos comerciais modernos não são apenas sobre bens — são sobre ecossistemas de serviços que tornam os negócios viáveis.

Mas aqui surge um ponto crítico que precisa ser tratado com objetividade técnica: o Brasil mantém um dos modelos mais pesados de encargos sobre a folha de salários do mundo. A carga média sobre a folha se aproxima de 35%, sendo 20% apenas de contribuição patronal previdenciária. Esse desenho encarece a formalização, reduz competitividade e limita a capacidade de expansão justamente dos setores mais intensivos em pessoas — exatamente o caso de grande parte dos serviços.

Quando analisamos propostas de mudança na base de financiamento previdenciário — substituindo parte da contribuição sobre a folha por uma contribuição sobre a receita — os resultados estimados são relevantes: queda de preços, aumento de valor agregado, crescimento de empregos e expansão da massa salarial. Em simulações técnicas, os serviços aparecem entre os segmentos mais beneficiados pela redução do custo direto do trabalho.

Esse debate deixa de ser apenas fiscal e passa a ser estratégico.

Estamos entrando rapidamente na economia da inteligência artificial, da automação avançada e da robótica. A indústria já produz mais com menos mão de obra. O agro segue o mesmo caminho. A produtividade cresce — e isso é positivo — mas o efeito colateral é a menor absorção relativa de trabalhadores nesses setores.

Quem tende a absorver emprego em escala é o setor de serviços:

Serviços profissionais, tecnológicos, criativos, educacionais, de saúde, de apoio empresarial, de relacionamento, de análise e de customização. Serviços onde o fator humano continua sendo diferencial competitivo.

Se o setor que mais pode empregar for o mais onerado pelo modelo de encargos, cria-se uma contradição estrutural: queremos emprego, mas tributamos fortemente o ato de empregar.

A integração com a União Europeia pode ampliar demanda por serviços brasileiros, estimular cadeias de valor, aumentar a necessidade de serviços técnicos e empresariais e gerar novas oportunidades. Mas para capturar plenamente esse potencial, o ambiente doméstico precisa estar alinhado. Isso inclui rever o peso dos encargos trabalhistas e discutir com seriedade a mudança da base de financiamento da Previdência para modelos mais amplos, estáveis e menos distorcivos sobre a contratação.

A agenda de abertura internacional e a agenda de modernização tributária precisam caminhar juntas.

Sem ajuste interno, a oportunidade externa perde força.

Com ajuste estrutural, vira vantagem competitiva real.

*VP do SESCON-SP, Diretor Técnico da Cebrasse – Central Brasileira do Setor de Serviços

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