Artigo: O Brasil que custa caro demais – e entrega de menos

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Artigo: O Brasil que custa caro demais – e entrega de menos

Por Vander Morales – Presidente do Sindeprestem e da Fenaserhtt

O Brasil vive um paradoxo que já não pode mais ser ignorado: o trabalhador ganha pouco, mas custa muito — e o emprego formal paga a conta dessa distorção.

Segundo estudo do professor José Pastore, o custo total de um trabalhador pode chegar a 103,7% acima do salário pago. Em outras palavras, para cada R$ 1 de salário, a empresa paga mais de R$ 1 em encargos, obrigações e custos indiretos. Isso não é apenas um número. Isso é um freio — um freio ao crescimento, à geração de empregos e ao futuro.

O modelo brasileiro foi construído ao longo de décadas com boas intenções, mas hoje produz um efeito perverso: penaliza quem gera emprego e não resolve a vida de quem trabalha. A conta é conhecida. Encargos sociais elevados, custos obrigatórios rígidos, complexidade legal extrema e insegurança jurídica crescente formam um ambiente hostil para quem quer produzir e contratar. O resultado também é claro: empresas com dificuldade para contratar, trabalhadores presos a salários baixos, crescimento da informalidade, expansão da pejotização e fuga de investimentos. Criamos um sistema em que formalizar deixou de ser uma solução e passou a ser um risco.

Há um drama silencioso em curso. O empresário não consegue contratar. O trabalhador não consegue viver com dignidade. E, no meio disso, o país perde competitividade. Hoje, a tributação sobre a folha no Brasil chega a níveis comparáveis — ou até superiores — aos de países ricos da OCDE, mesmo com uma produtividade muito menor. É como cobrar imposto de país desenvolvido em uma economia que ainda luta para crescer.

Enquanto o Brasil complica, outros países simplificam. O Paraguai é hoje o exemplo mais evidente dessa diferença de ambiente de negócios. Mais de 200 indústrias brasileiras já migraram para lá, atraídas por um modelo que combina tributação de apenas 1% sobre exportações, por meio da Lei de Maquila, isenção de impostos sobre insumos, menor custo trabalhista e um ambiente jurídico mais previsível. O impacto é direto: redução de até 40% nos custos operacionais, aumento da competitividade e maior capacidade de investimento. O mais grave é que empregos que poderiam estar sendo gerados no Brasil estão sendo criados fora dele.

Outro fator que agrava esse cenário é o ambiente judicial. O Brasil concentra um volume de ações trabalhistas sem paralelo no mundo. Mesmo após a reforma de 2017, decisões recentes voltaram a ampliar a judicialização. Segundo matérias publicadas na imprensa recentemente, empresas brasileiras pagaram R$ 50 bi em ações trabalhistas em 2025. O recado que fica para quem emprega é preocupante: o risco jurídico é alto, o custo é imprevisível e planejar virou um desafio. E onde há insegurança, não há investimento.

O chamado Custo Brasil não é um conceito abstrato. Ele é real, mensurável e está sufocando o país. Ele se manifesta quando um empresário desiste de contratar, quando um jovem deixa de buscar um emprego formal, quando uma indústria cruza a fronteira, quando um produto fica mais caro ou quando um investimento deixa de acontecer.

Diante disso, o Brasil precisa fazer uma escolha. Não se trata de retirar direitos, mas de tornar o sistema sustentável. É necessário construir um novo equilíbrio, com menos carga sobre a folha, mais estímulo à formalização, segurança jurídica, simplificação das regras e maior competitividade internacional. Porque hoje o Brasil está competindo em clara desvantagem.

O Brasil não é um país pobre. É um país travado. Travado por um modelo que encarece o trabalho, desestimula o emprego e afasta investimentos. Se quisermos crescer de verdade, precisamos enfrentar essa realidade com coragem. Porque, enquanto o emprego custar caro demais, o futuro continuará custando caro para todos nós.

Fonte: https://sindeprestem.com.br/artigo-o-brasil-que-custa-caro-demais-e-entrega-de-menos/

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