Um afeto que impacta: como o apadrinhamento afetivo resgata sonhos de crianças acolhidas

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Um padrinho que leva a criança à escola. Uma madrinha que vai à colação de grau. Uma ligação no fim do dia para perguntar como foi o primeiro emprego. Ou simplesmente o apoio na busca por um lugar para morar ao completar a maioridade.

São gestos cotidianos que podem parecer banais, mas que significam muito para crianças e adolescentes com longa permanência em instituições de acolhimento. Em muitos casos, esses pequenos grandes momentos simplesmente não existem. E, quando acontecem, costumam ser vividos ao lado de profissionais, e não de alguém que escolheu estar ali apenas por afeto.

É nesse contexto que surge o Apadrinhamento Afetivo, uma estratégia prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e apoiada por diretrizes do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Mais do que um gesto de solidariedade, trata-se de um compromisso afetivo e social, com potencial de reconstruir vínculos, fortalecer a autoestima e apoiar projetos de vida.

Quem explica é Juliana Dias Barbosa, coordenadora do Programa de Apadrinhamento Afetivo do Instituto Fazendo História. Segundo ela, o programa permite que crianças institucionalizadas desenvolvam laços com adultos fora dos abrigos, ampliando suas experiências de convivência familiar e comunitária.

“Mesmo com qualidade, a institucionalização não substitui a vivência cotidiana em família e na comunidade. O apadrinhamento amplia as oportunidades de afeto e socialização”, afirma Juliana.

O Instituto Fazendo História atua na formação de profissionais que integram esses programas em todo o Brasil, como no recente Projeto Abraço, desenvolvido em parceria com a Vara da Infância e Juventude de Santo Amaro, o Instituto Acrescer e a CEBRASSE (Central Brasileira do Setor de Serviços).

Para o presidente da CEBRASSE, João Diniz, apoiar a iniciativa é um exercício de responsabilidade social com impacto direto na inclusão de jovens em situação de vulnerabilidade.

“A parceria é no sentido de a entidade entender a importância do apadrinhamento afetivo para dar chance ao jovem carente em situação de acolhimento pelo Estado de ter um norte de pessoas mais experientes no sentido de vivências familiares, com consequências de aconselhamento estudantil e profissional, aumentando suas chances de boa inclusão na sociedade”, ressalta.

Muito além da caridade

Para Juliana, um dos principais desafios é desconstruir a ideia de que apadrinhar é um gesto de caridade. “É preciso entender que se trata de uma atuação inserida nas políticas públicas. Por isso, os candidatos precisam passar por formação e compreender com clareza suas motivações”, explica.

Essa mudança de perspectiva tem sido um dos pilares do trabalho formativo conduzido pelo Instituto, que orienta a realização de, no mínimo, seis encontros com os futuros padrinhos e madrinhas. Os temas abordados incluem saúde mental, adolescência, relações raciais, história de vida, estrutura dos serviços de acolhimento, entre outros conteúdos essenciais para preparar os envolvidos de forma consciente e sensível.

Desafios e caminhos

Apesar dos avanços, o apadrinhamento afetivo ainda enfrenta obstáculos importantes. A ausência de financiamento contínuo, a alta rotatividade nas equipes dos serviços de acolhimento e a falta de diretrizes técnicas nacionais dificultam a expansão e a consolidação dos programas.

“Sem recursos regulares e sem diretrizes claras, muitos programas se tornam episódicos e dependem do esforço individual de profissionais e instituições”, destaca Juliana.

Ainda assim, ela se mantém otimista. “Para quem viveu de perto os impactos significativos das relações de apadrinhamento afetivo, não restam dúvidas: o afeto é um direito. E quando chega, muda tudo”, conclui.

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